Traço na campa

Aproveita-o

Archive for Dec, 2007

Dec

14

O Flagelo

Posted by: Tiago Pereira

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Olá, eu sou o Tiago e tenho Dislexia Palmiérica.

Decidi incorporar neste blog uma nova vertente: a de confessionário. Isto porque pretendo aqui revelar que padeço de uma maleita tão rara quanto incompreensível, mas que me atormenta desde tenra idade. Sempre tive um fetiche de dar um nome a uma doença, e à falta de melhor rasgo criativo, chamo a este pesadelo crónico de Dislexia Palmiérica. Em latim deve ser algo como Dislexius Palmiericus, enquanto em inglês tenho a certeza que é Dislexians Palmierents.

E no que consiste esta enfermidade? Pois bem, eu digo-vos:

… Cá vai…

Não consigo distinguir um palmier recheado de um palmier coberto. Não consigo, pronto.

Eu sou uma pessoa normal. Cumpro todos os trâmites de um ser humano racional. Falo, rio, choro, vejo, sinto, e por vezes até faço umas coisas acertadas e tal. Mas não sei que espécie de falha, de buraco negro cósmico que suga a minha lógica, me impede de saber e, mais importante e trivial, de decorar os nomes respectivos dos palmieres.

Contam-se pelas dezenas as pessoas que já perderam tempo a tentarem auxiliar-me nesta batalha, ora através de elaboradas teorizações, ora através de situações práticas. Eles explicam-me por a + b o que é um e outro:

- O recheado é este e tem o recheio, o coberto é este porque é assim.”

Eu concordo e abano a cabeça em sinal afirmativo. Mas passados cinco meros minutos, isto é o que vai na minha mente:

” O recheado é este coberto e é assim porque tem o recheio.”

Dez minutos depois da altruísta explicação, este é o resultado confrangedor que prevalece no meu raciocínio:

“O __ch__o _ e__ c___t_ e é as_im p__ue __ o ___e_o.”

Não dá, são esforços em vão.

Quando a fome aperta e eu me dirijo a um café, a aquisição e posterior degustação de um palmier é sempre uma opção fortíssima a ter em conta, dado o prazer que invariavelmente me proporciona. Na hora de pedir o dito cujo, segue-se o habitual diálogo prévio:

- Boa tarde.
- Boa tarde. Queria um café.
- Queria, já não quer?
(Esta resposta muito comum nos profissionais de restauração será por si só alvo de um breve post futuro neste blog)
- Deseja mais alguma coisa?
- Ah… pode ser também um palmier.

Quando os nossos olhos se dirigem em sintonia em direcção à secção dos bolos e constatam a presença de palmieres confeccionados das duas formas distintas, dá-se início a um processo de mutação por todo o meu corpo. Evidenciando um nervosismo premonitório, consciente da pergunta que aí vem, sinto a minha face a ficar levemente ruborizada, um leve suor frio a percorrer-me, a veia jugular a palpitar. Faz-se um breve silêncio sinistro, até que…

- Coberto ou recheado?

E pronto. Puff. A minha cabeça entrou em colapso. O fusível disparou. O meu cérebro torna-se subitamente num Rao Kyao sem flauta. Inútil e inerte. Faça a escolha que fizer, dê a resposta que der, estará errada e não corresponde àquilo que queria. E se, por uma conjugação milagrosa de factores, acertar por uma vez que seja, então esse será o dia certo para tentar a minha sorte no Casino, no Euromilhões, no Totobola, no Bingo, no Preço Certo em Euros (um abraço Fanã), tudo ao mesmo tempo.

Este flagelo atormenta-me há 26 anos e estou disposto a tudo para lhe pôr um fim, porque já não suporto o mal que me faz e o sofrimento que por causa dele provoco aos que me rodeiam. O primeiro passo para a cura é saber reconhecê-lo.

Olá, eu sou o Tiago e tenho Dislexia Palmiérica.

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