Traço na campa

Aproveita-o

Archive for Mar, 2008

Mar

17

O Kit Sacavém

Posted by: Tiago Pereira

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Hora de serviço público: Para quem estiver interessado ou tenha necessidade de se deslocar nos próximos tempos à maravilhosa localidade de Sacavém, informa-se que já se encontra disponível ao público o Kit Sacavém. Esta ferramenta contém os produtos indispensáveis para poder desfrutar da cidade em segurança e com o máximo conforto possível. O Kit Sacavém inclui:

- Mapa Mundi, para poder encontrar o caminho certo para Sacavém vindo de Lisboa sem correr o risco de se perder antes na Portela, no Prior Velho ou em Moscavide, sítios pelo quais passou a ser obrigatório passar.

- Capacete de motocross, para com o seu veículo motorizado usufruir das inúmeras pistas de cross e todo-o-terreno disponíveis por todas as artérias principais da cidade. Faça desporto cá dentro.

- Máscara de oxigénio, para poder contemplar a vista panorâmica do Rio Trancão sem ter receio dela se entranhar pelo nosso nariz adentro sem ser convidada e das consequências maçadoras que daí poderão advir.

- Autocolantes com as inscrições “GTI”, “TDI”, “16v”, “Tuning não é crime” e um simulador de tampão da gasolina metalizado, para adornar o seu veículo e imiscuir-se dessa forma nos sempre muito concorridos e efusivamente apreciados eventos motorizados nocturnos que por lá ocorrem todos os fins-de-semana. Para a integração ser perfeita, convém pelo menos fingir que tem um QI neutro, ou seja, nem muita nem pouca inteligência. Apenas inexistente.

- Cachecol alusivo ao S.G. Sacavenense, para ir trajado a rigor assistir às emocionantes e altamente competitivas jornadas futebolísticas do histórico clube da terra, agora que milita na prestigiante 1ª Divisão Distrital de Lisboa.

- Equipamento completo de mergulho, com fato, escafandro e barbatanas, além da oferta de um barco de borracha para poder ir tomar o seu café ou fazer as suas compras à vontade naqueles dias mais frescotes, em que as gotinhas de chuva fazem a sua aparição marota.

- Colete à prova-de-bala, para poder estacionar o seu automóvel em segurança.

O Kit encontra-se já à venda nos locais habituais. Adquira-o o quanto antes e viva com emoção as sensações únicas proporcionadas pela mui nobre cidade de Sacavém.
 

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Mar

13

O Menino Que Chora

Posted by: Tiago Pereira

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Há uma imagem que povoa o nosso inconsciente e provavelmente nunca mais de lá sairá. E bem podemos agradecer essa proeza a algum primo, vizinho, a amigos ou até mesmo aos nossos parentes mais próximos como os pais, avós ou tios, pois certamente que de entre esta comunidade que constituía o nosso núcleo de visitas ao domícilio, alguém o possuía. O quadro do menino que chora.

Ostentado efusivamente numa pujante parede principal, confinado num canto de uma divisão secundária ou até mesmo relegado para um sótão bafiento, lá estava ele silencioso a observar-nos sem darmos conta, com um olhar desesperado e desaprovador da nossa própria existência. A título de curiosidade, refira-se que a autoria da pintura é atribuída a um artista chamado Bragolin e faz parte de uma colecção de 28 peças sempre com o mesmo motivo: crianças a chorar.

Mas o que torna o dito cujo ainda mais interessante é que há uma série de lendas e histórias de maldições que o envolvem. O mito mais comum associado ao retrato em causa foi popularizado pelo jornal “The Sun” e conta que o quadro, quando virado ao contrário, revela a imagem do demónio, sendo por isso um objecto assombrado. Devido a essa sina, a peça não pode ser queimada nem se deve tentar destruí-la de qualquer forma, ou a maldição passa para o seu dono. A única maneira segura de se desfazer dele consiste em atirá-lo a um rio que corra em direcção ao sul.    

A meu ver, esta obra em nada fica a dever a uma inspiração artística de Andy Warhol ou de Roy Lichtenstein, mesmo sem os traços coloridos a salientarem-lhe as formas e emoções. Aqui fica o quadro pop mais famoso da década de 80 e afins em todo o seu esplendor.

Peço desde já desculpa se com isto vos reavivei alguma recordação mais recôndita e sinistra.

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Mar

11

A Doce Arte da Simplicidade

Posted by: Tiago Pereira

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Não tenho por hábito acompanhar as cerimónias dos Óscares nem todo o frenesim gerado em torno dos filmes que “vão a jogo”, e muito menos me considero um cinéfilo militante. Sempre que tenho um tempo livre, a minha paixão pela sétima arte tem sido constantemente ultrapassada pelo prazer cada vez mais requintadamente saciado em degustar uma bela série projectada para TV. Aí sim, encarno verdadeiramente o papel de aficionado de um Lost, um 24, um Prison Break, um The Office ou um Big Train, só para mencionar alguns exemplos.

No entanto, este ano foi diferente no que respeita ao meu interesse pela entrega do galardão máximo da indústria cinematográfica. Não tendo visto todos os filmes em causa, posso pois dizer subjectivamente que concordei com as distinções mais relevantes, com particular destaque para a de Melhor Actor Secundário para Javier Bardem em No Country for Old Men. O seu Anton Chigurh consegue pôr a um canto virado para a parede e com orelhas de burro o mais maléfico dos psicopatas.

Mas, de todas as nomeações, aquela que mais curiosidade me suscitava foi precisamente a que me deu a maior das satisfações: o Óscar de Melhor Música foi entregue ao filme Once, com a música Falling Slowly. Não foi tanto a atribuição do galardão que me alegrou, mas sim o reconhecimento justíssimo da grandiosidade deste filme irlandês modesto em recursos, em estrelas (sem actores profissionais, imagine-se), sem efeitos de qualquer espécie, mas com uma esmagadora simplicidade e brilhantismo que o eleva ao pódio das películas imortais que apetece levar connosco para todo o sempre.

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Em cada cena transpira-se o real e o honesto, sem nunca esses trunfos nos serem atirados à cara de forma óbvia. Filmado em jeito de documentário, Once desenvolve-se com o pano de fundo baseado na química musical entre Glen Hansard e Marketa Irglova, dois músicos na vida real e sem experiência de interpretação cinematográfica, o que valoriza ainda mais a sintonia gerada pelos dois protagonistas e a afinidade instantânea que nos provocam. O argumento do filme flui por entre as músicas cantadas nos momentos certos, num encadeamento tão lógico como perfeito, até chegarmos a um final avassaladoramente subtil e melancólico.

Aqui deixo a sequência de abertura com aquela que talvez seja a minha música favorita do filme, algo muito difícil de destacar face à enorme qualidade da banda sonora.

Não sendo eu um especial apreciador de musicais, considero-me insuspeito para poder catalogar este filme como uma pérola preciosa e um verdadeiro hino ao doce realismo que por vezes escapa à nossa percepção do dia-a-dia. Once é uma bela prova de que a simplicidade é a mais complexa das formas de arte.

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Mar

09

O Elixir da Vida

Posted by: Tiago Pereira

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No espaço de pouco mais de uma semana tive o privilégio de assistir a dois concertos fantásticos no Pavilhão Atlântico. Ambas as bandas em questão são para mim muito especiais e marcaram-me indelevelmente, cada uma à sua maneira e em fases diferentes do meu crescimento como pessoa. O som característico das suas músicas e a evocação de sentimentos que me provocam transportam-me para um outro mundo completamente irreal e indecifrável.

Musicalmente falando, os The Cure remetem-me para a infância (cortesia da minha irmã) e os Korn para a adolescência, perfazendo até aos dias de hoje a banda sonora da minha vida. Revejo leves traços da minha personalidade projectados nas vozes e nas profundezas tanto de Robert Smith como de Jonathan Davis, que de alguma forma contribuíram com a sua arte para moldar-me na forma de lidar com certas emoções. Para meu contentamento, pude comprovar ao vivo e a cores que estão melhores do que nunca, o que me deixa reconfortado por uma simples razão: De cada vez que os vejo, ouço e sinto, celebro a minha própria existência.

Obrigado, The Cure. Obrigado, Korn. Por jamais me deixarem envelhecer. 
 

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