Feb
17
Um dia destes tive um sonho bizarro. Nesse sonho tinha um trabalho. Era motorista de um autocarro.
Poderia ser motorista uma carrinha, de um mini-bus, até de uma limusina, mas não. O autocarro que conduzia era um daqueles de dois andares. As limusinas são muito espampanantes e supérfluas, e os outros transportes não tinham lugares suficientes, supus.
Concentrado na minha tarefa de levar o transporte público pelo seu trajecto correcto, lá seguia eu paragem após paragem, sempre no mesmo sentido. Em frente. Por vezes demorava mais tempo numa dada paragem, pois eram muitas as pessoas que nela esperavam ansiosamente por entrar. Em contraste, paragens havia onde era apenas um o passageiro que aguardava pacientemente para fazer parte da viagem. Em todas elas havia algo em comum: o autocarro parava lá uma e apenas uma só vez, após a qual seguia o seu caminho. E eu não tinha a tentação de olhar pelo retrovisor.
Algo que achei desde logo estranho foi precisamente o trajecto. Lembro-me de não ter qualquer mapa à minha frente, não tinha nenhuma referência à qual pudesse obedecer. Além disso, a sinalização da estrada por vezes era confusa e enganadora, polvilhada com cruzamentos, semáforos, sentidos proibidos e becos sem saída prontos a inquietar as minhas decisões. Mas era a minha convicção que ditava o meu caminho, e por isso eu seguia em frente. Porque sabia que era o único caminho que interessava. Podia andar para cima ou para baixo naquela estrada, parar ou andar às voltas até ficar tonto como fazia quando era miúdo, mas no fim só havia um sentido. Em frente. E para isso não precisei de indicações.
No entanto, o mais curioso deste meu sonho inóspito tinha a ver com os passageiros. Cada um deles era-me familiar. Desde a própria família, até aos amigos mais chegados, aos meros conhecidos de circunstância, a todos chegava a sua vez de entrar no autocarro.
Havia grandes diferenças entre eles. Uma delas era o tempo que demoravam a entrar e sair. Os mais apressados entravam numa paragem e saíam logo na seguinte, os mais vagarosos alongavam o seu trajecto por mais alguns quilómetros de estrada.
Outra diferença foi o lugar que tomaram. Alguns sentaram-se perto de mim e acompanharam a minha marcha com toda a atenção, outros sentaram-se em grupo naqueles assentos de quatro e passaram a viagem toda em plena animação. Houve ainda quem tivesse optado pelos últimos bancos e por lá permaneceu introvertido e concentrado, enquanto uma ou outra pessoa se sentou nos bancos singulares e demonstrou indiferença perante todos os outros ocupantes.
A dada altura, dei por mim prestes a terminar o meu percurso. Foi nesse momento em que pela primeira vez olhei para trás e reparei que, enquanto muitos passageiros tinham saído nas suas paragens, outros houve que ficaram até ao fim, a acompanhar-me na minha viagem por aquela estrada fora. Coincidência ou não, os resistentes eram as pessoas mais importantes para mim.
Foi então que me apercebi que o sonho era tudo menos bizarro. Pois a estrada era a minha vida. E o autocarro era eu.

“Nunca sueño cuando duermo, sino cuando estoy despierto.” - Juan Miró
February 17th, 2010 at 8:06 pm
Sonhaste mesmo isto? Either way, mui boa metáfora…
E eu, onde me sentei?
*
June 15th, 2010 at 1:53 pm
que tal deixares de sonhar com autocarros e começares a sonhar com maquinas de escrever, lombadas de livros e papel de revista?